
O Cabeleira
Franklin Távora (?–1888)
O começo — Ao leitor
A casa, onde moro, está situada ao lado de uma rua de bambus, em um dos cantinhos mais amenos da bacia de Botafogo.
Vejo daqui uma grande parte da baía, os morros circunstantes, cravando seus cumes nas nuvens, o céu de opalo, o mar de anil.
Infelizmente este belo espetáculo não é imutável.
De súbito o céu se torna brusco, e só descubro cabeços fumegantes em torno de mim; ribomba o trovão nos pincaros alcantilados; a chuva fustiga as palmeiras e casuarinas; a ventania brame no bambuzal; a casa estala. Parece que tudo vai derruir-se.
Estas tormentas duram horas, noites, dias inteiros, e reproduzem-se com mais ou menos frequência.
Quando elas têm passado de todo, o céu mostra-se mais puro e belo, o mar mais azul, as arvores mais verdes; a viração tem mais doçura, as flores mais deliciosos aromas.
Pela face das pedreiras correm listrões dágua prateada, que refletem a luz do sol, formando brilhantes matizes. Coberta de frescas louçanias, a natureza sorri com suave gentileza depois de haver esbravejado e chorado como uma criança.
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