
O engenhoso fidalgo D. Quichote de la Mancha
Miguel de Cervantes (?–1616)
O começo — I/Prologo
Desoccupado leitor: Não preciso de prestar aqui um juramento para que creias que com toda a minha vontade quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo, e discreto, que se pudesse imaginar; porém não esteve na minha mão contravir a ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante, que podia portanto o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir neste mundo, senão a historia de um filho magro, seco e enrugado, caprichoso, e cheio de pensamentos vários, e nunca imaginados de outra alguma pessoa? Bem como quem foi gerado em um carcere onde toda a incommodidade tem seu assento, e onde todo o triste ruido faz a sua habitação!…
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