
A Morte da Águia
Jaime Cortesão (?–1960)
O começo — I
O despertar de um deus / Nasceu a Águia na Montanha. / O ninho foi hórrida brenha / Numa caverna exposta aos ventos, / — Hirta e petrificada boca, / Por onde uma Sibila de voz rouca / Prediz ao Mundo os novos sofrimentos. —
Átrio do Céu, assenta numa rocha, / Que arranca da Montanha e desabrocha / Como uma flor em plena imensidade; / Do pétreo cálix, das entranhas virjens, / Sái um perfume tal, que dá vertijens, / Que a flor tem por aroma a Tempestade.
Nicho de catedral, abandonado, / E penhascoso baldaquino armado, / Sem que um pobre santinho ali se acoite; / Ou donde foje algum lijeiro santo / Tentado pelo Céu, e voa tanto / Que só recolhe lá por alta noite.
Átrio do Céu, pra que entre e saia o Dia; / É lá que a Aurora se atavia / Para mostrar ao Mundo o claro rosto; / Átrio do Azul que a Madrugada escolhe, / Tambem ali se acolhe / O derradeiro raio do Sol-posto.
De tam alto, sublime, etereo assento, / Com que arrebatamento / O olhar agudo se estendia ao largo: / Píncaros, vales, azulados montes… / Líquidos horizontes … / O voluptuoso abraço do Mar-largo …!
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