No País dos Yankees
Adolfo Ferreira Caminha (1867–?)
O começo — I
…Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros estavam todos em seus postos, alerta à primeira voz, silenciosos, enfileirados a bombordo e à boréste, alguns convenientemente distribuídos na popa, na proa e nas cobertas do cruzador.
Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrelas, cortada de clarões longínquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gás da cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pálidamente com a sua luz tremula e vacilante…
[12] E contudo estávamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no rigor do verão.
Chuvera todo o dia. O céu conservava-se coberto de nuvens bojudas e cor de chumbo, velando uns restos de lua.
Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a baía do Rio de Janeiro. Somente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino de uma igreja, compassado e lúgubre.
De vez em quando passava rente com a popa do Barrozo o vulto sombrio e largo de uma barca Ferry, com o seu farol de cor, dezerta, indistinta, e que desaparecia logo na escuridão.
Adolfo Ferreira Caminha (autor) morreu em 1897; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1968.