Os Jogadores de Xadrez
O começo
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia / Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam / O tabuleiro antigo, / E, ao lado de cada um, esperando os seus / Momentos mais folgados, / Quando havia movido a pedra, e agora / Esperava o adversário, / Um púcaro com vinho refrescava / Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram / As arcas e as paredes, / Violadas, as mulheres eram postas / Contra os muros caídos, / Traspassadas de lanças, as crianças / Eram sangue nas ruas… / Mas onde estavam, perto da cidade, / E longe do seu ruído, / Os jogadores de xadrez jogavam / O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento / Lhes viessem os gritos, / E, ao refletir, soubessem desde a alma / Que por certo as mulheres / E as tenras filhas violadas eram / Nessa distância próxima, / Inda que, no momento que o pensavam, / Uma sombra ligeira / Lhes passasse na fronte alheada e vaga, / Breve seus olhos calmos / Volviam sua atenta confiança / Ao tabuleiro velho.
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