Marános
Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos
O começo — Canto 1
Marános era o Sêr que vagueava / Errante pelo mundo; a criatura / Que mais do seu espirito vivia / Que dos frutos da terra…
A noite escura / Em seus olhos se fez; e os povoou / De sombras e de espantos, porque o Espirito / É luz, mas foi a Noite que o criou.
E logo, a sua vida se tornara / Inquieta como o vento e como as ondas; / E mais alta, mais triste e mais sozinha / Do que um êrmo pinheiro alevantado / Na confusão sombria da noitinha… / E partiu pelo mundo; e o acompanhava / Um vulto escuro e pálido: era a sombra / Que seu corpo terreno derramava… / Ia tão falto de animo e esperança, / Que apenas o salvou da negra morte / Esta misteriosa simpatia / Que, semelhante à tua lira, Orfeu, / Sabe encantar a noite e a luz do dia; / Sabe atrair as selvas que murmuram, / As nuvens e os rochedos taciturnos / E as estrelas do céu que nos procuram / Com seus olhos de eterna claridade. / Por isso, ele ia andando neste triste / Enlevo da paisagem, neste…
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