Os Sinos Poesia Narrativa
Raul Sangreman Proença (1884–?)
O começo
Sentiam-se sonhar embriagadoramente / Lirios, como D. Juans, rosas, como as Ofélias, / E até o próprio ar tinha uma voz gemente / Ao beijar, soluçante, as rosas e as camélias.
Sob a janela um Poeta altivo e orgulhoso / Acertou de passar, cantando meiga trova… / E então Leonor sentiu o frêmito do gozo, / A estranha sensação de uma volúpia nova.
Naquêle ardente olhar tinha ela conhecido / O filtro da Paixão, enervante e sereno… / Quantas de vós, também, não tendes já bebido / No vosso negro olhar esse fatal veneno!
O amor, ele que iguala as raças e as nobrezas / E que possui as forças das paixões daninhas / Que faz curvar os réis ao pé das camponezas / E faz deitar plebeus nos leitos das rainhas;
O amor, ele que faz dormir as violetas / Junto aos cravos gentis, junto aos lírios suaves, / Transpusera a cantar suas pupilas pretas, / Como ninhos de sonho onde adormecem aves.
A viola gemia… / E p'la primeira vez / Leonor se pôs a ouvir a lânguida harmonia, / Em louca embriaguez.
Raul Sangreman Proença (autor) morreu em 1941; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2012.