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Suspiros Poéticos e Saudades (1865)

Gonçalves de Magalhães (?–1882)

Poesia2 h 40 de leitura143 páginas

O começo — A Afflicção

Não, não é sangue; é fel envenenado, / Que em minhas veias gira. / Não, não é vida; são espinhos hirtos, / São ervados acúleos, que incessantes / O coração me pungem. / Não, não é ar; é o hálito da morte, / Que o peito me comprime. / Não são do mundo as cenas que me envolvem, / São as cenas do Inferno.

É possível, meu Deus, que tanto sofra / Um mísero mortal, e qu'inda viva? / Queres ver do teu servo / A alma, de padecer já calejada, / Sem murmurar, sem blasfemar té onde / A paciência leve? / Em mim acaso novo Job preparas? / Ou o meu coração não é de humano, / Ou a dor já o tem empedernido / Co'o reiterado embate.

Oh meu Senhor, pequeno é o meu peito, / Para conter um coração repleto / De tantas aflições, de angústias tantas. / Tira-me a própria vida, / Tira-me o sentimento, / Ou com tríplice lâmina de ferro / Forra meu peito, e meus ouvidos cobre.

Oh dever de homem probo! / Hei de eu como uma incude duros golpes / Suportar insensível, sem queixar-me / De quem martírios tais sem dó me causa?

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